Artigo de professor do INF é destaque na Edição 95 do Jornal UFG

O que a engenharia de software brasileira tem de diferente?

Marcelo Quinta, professor do Instituto de Informática da UFG, comenta cenário brasileiro para o profissional da área de tecnologia

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(Ilustração: André Noel)

Marcelo Quinta

Recentemente venho recebendo muita comunicação das pessoas sobre dúvidas referentes ao que deve ser feito para conseguir emprego ou pós-graduação em Engenharia de Software fora do país. Pretende-se ter ao menos uma formação ou qualidade de vida melhor da que temos aqui. Bolsas e oportunidades com bons salários costumam ser mais comuns no hemisfério Norte pela grande proximidade das empresas que veem a tecnologia da informação como solução para seus problemas ou base de seus produtos. Os projetos têm metas mais rígidas de resultado, diferentemente de uma régua só com artigos. A aplicação em cenário real é regra e isso caracteriza a inovação e os ganhos globais. Quem hoje não utiliza algum dos produtos Google, Apple ou Facebook (inclui WhatsApp e Instagram)?

Lembrando de todas essas grandes empresas, pensamos que o que temos por lá são profissionais com formação e experiência diferenciadas, diferentes e superiores ao que temos por aqui. Mas será que isso não é preconceito conosco? Pense no dia a dia de quem faz aplicativos para o Brasil: estes serão executados em celulares geralmente simples, com dificuldades de conexão, velocidade reduzida e usuários com pouca educação tecnológica (infelizmente). Fazemos servidores gastar o menor valor possível porque são cobrados em dólar e nossa receita para pagá-los é em reais, as vezes chegando atrasada devido aos cortes. Criamos soluções onde teoricamente nada funcionava, implantamos software onde nem processo existia e damos agilidade ao que estava inerte.

Talvez por todos esses motivos, a maioria das respostas aos e-mails anteriormente citados costuma decepcionar os destinatários: "fale inglês para ser entendida e conte o que faz no dia a dia, não esquecendo de descrever como é sua atuação aqui no país, tamanho, configuração da equipe e os resultados que conseguiu. Nada muito além disso". A forja do ambiente cria na nossa situação nacional um dos perfis mais interessantes: o do profissional com produtividade, criatividade e grande jogo de cintura (quando quer). Isso é comum se compararmos com outras áreas, mas quando aplicado a um seleto grupo de profissões globalizadas escancara uma oportunidade e virtudes gigantescas que podemos ter. Somos muito melhores que achamos e sabemos gerir recursos como ninguém quando queremos entregar resultado.

Portanto, o que nós engenheiras e engenheiros temos de diferente no Brasil é menos recursos e mais restrições. A formação acadêmica é a mesma. Os processos têm uma mesma base. As leis envolvidas são bem próximas. Somos talvez um dos melhores do mundo. Só nos falta a autoestima. A lição tomada disso vai da visão de cada um. Pode ser visto como um problema para gerar inércia na atuação e no salário ou um trampolim para aprender mais e dar passos mais largos. Lembre-se da Califórnia, que tem a tecnologia da informação como base larga da sua matriz econômica e, segundo a revista Fortune, é agora a quinta maior economia do mundo. E se você é uma gestora ou um gestor, pense no potencial que pode ter quando a tecnologia passa a ser parte importante para expandir seu cérebro e não somente ser mais um braço. Temos mais restrição e um mercado não consolidado? Que bom! Há um oceano azul de oportunidades!

Marcelo Quinta

Professor do Instituto de Informática, Marcelo Quinta recebeu dois prêmios do Google e Intel como profissional com
maiores resultados no mundo quanto à atuação no ensino e empreendedorismo para a comunidade (Crédito: acervo pessoal)

* O Jornal UFG não endossa as opiniões dos artigos, de inteira responsabilidade de seus autores.

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Fonte: SECOM/UFG